sábado, 30 de maio de 2026
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GH e KH da torneira no Brasil: o mapa que decide quais peixes você consegue manter

A dureza da água da sua cidade já decidiu, antes de você entrar na loja, quais peixes vão prosperar. Comparativo prático entre capitais brasileiras e o que cada faixa permite.

Felipe Camargo 4 min de leitura
Aquário plantado com cardume de tetras pequenos em primeiro plano, água cristalina e iluminação suave
Aquário plantado com cardume de tetras pequenos em primeiro plano, água cristalina e iluminação suave

Recebo isso semanal: “Felipe, comprei um cardume de discus e em 3 semanas perdi 5 peixes. A água da torneira não tinha cloro.” Pergunto o GH. Silêncio. Pergunto a cidade. “Recife.” Aí o problema deixa de ser misterioso. A água tratada de boa parte do Nordeste sai do tratamento com GH alto e KH alto — o oposto exato do que o discus precisa. Não era cloro. Era a química básica que ninguém te falou antes de você gastar R$ 1.200 em peixe.

O que importa decidir antes de escolher peixe

Antes de comprar qualquer espécie sensível à dureza, três medidas mandam:

  1. GH (dureza geral) — concentração de íons cálcio e magnésio. Define quais peixes regulam osmoticamente bem. Unidade: °dGH (graus alemães) ou ppm. Conversão: 1 °dGH ≈ 17,9 ppm.
  2. KH (dureza de carbonatos) — capacidade tampão da água. Estabiliza pH. KH baixo + CO2 = pH cambaleante e peixe estressado.
  3. pH — consequência, não causa. pH “ideal” para discus (5,5–6,5) só se mantém estável se KH for baixo.

Compre teste de gota (kits Sera, JBL, Red Sea — entre R$ 60 e R$ 140 cada). Fita seca mente.

Tabela — GH e KH típicos por cidade (água tratada)

Os números abaixo são faixas observadas por aquaristas brasileiros e por relatórios técnicos das companhias de saneamento. Variam por bairro, época e manancial — sempre confirme medindo na sua torneira, principalmente em capitais que misturam fontes (São Paulo, Rio).

CidadeGH (°dGH)KH (°dKH)pH típicoPerfil
São Paulo (Sabesp — Cantareira)3–62–46,8–7,2Mole-média, fácil de ajustar
Rio de Janeiro (Cedae — Guandu)4–73–57,0–7,4Média
Belo Horizonte (Copasa)3–52–47,0–7,3Mole-média
Curitiba (Sanepar)2–42–36,9–7,2Muito mole — quase pronta pra discus
Porto Alegre (DMAE)3–52–47,0–7,3Mole-média
Brasília (Caesb)4–73–57,1–7,4Média
Salvador (Embasa)6–104–77,4–7,8Dura
Recife (Compesa)7–145–107,5–8,1Dura a muito dura
Fortaleza (Cagece)8–145–97,6–8,0Dura
Manaus (Águas de Manaus)1–31–25,5–6,5Muito mole, ácida — terra do discus

Fonte cruzada: relatórios anuais de qualidade das companhias de saneamento + medições reportadas por aquaristas em fóruns brasileiros (Pet Cube Brasil, Aquaa2a). O WHO Hardness in Drinking-water descreve a metodologia padrão de classificação que aplico nessa tabela.

O que cada faixa de GH permite

Faixa GHClassificaçãoPeixes que prosperamPeixes que sofrem
0–4 °dGHMuito moleDiscus, escalar selvagem, neon cardinal, bettas, killifish, apistogrammaVivíparos (guppy, platy, molly) — osmorregulação ruim
4–8 °dGHMole a médiaTetras, corydoras, otocinclus, gourami, escalar comum, peixe-anjoVivíparos no limite, mas dá
8–12 °dGHMédia a duraGuppy, platy, molly, ciclídeos americanos não-amazônicos, peixe-douradoDiscus, neon, killifish (mortalidade alta)
12+ °dGHDura a muito duraCiclídeos africanos (Malawi, Tanganyika), goodeídeos, mollys-do-marTudo da Amazônia

Repare: ciclídeo africano em Recife/Fortaleza/Salvador é praticamente plug-and-play da torneira (com tratamento de cloro). Discus em Recife exige osmose reversa ou desistência. Esse é o ponto que ninguém posta nos grupos.

Minha escolha e por quê

Mantenho aquário plantado de 400L em uma cidade com GH em torno de 5 e KH em torno de 3. Para mim, isso decidiu o estoque: tetras-cardinais, otocinclus, corydoras-pigmeus, apistogramma cacatuoides. Não tento discus porque o KH baixo combinado com injeção de CO2 já me dá pH oscilante o suficiente — discus exige controle mais fino do que minha rotina permite. Tentei goldfish na adolescência aquarista; abandonei por incompatibilidade com plantas e por ciclo de bioload completamente diferente.

Quem tem torneira na faixa de Recife/Fortaleza/Salvador e quer discus: precisa de osmose reversa (filtro RO produz água quase 0 GH/KH) + remineralizador (Salty Shrimp Discus, Seachem Equilibrium ou similares). Custo de osmose doméstica: R$ 600–1.500 dependendo da membrana e do estágio. Pesa contra os R$ 1.200 do discus.

FAQ

Posso baixar GH com folha de amendoeira / barbatimão?

Folhas de amendoeira liberam taninos que acidificam levemente (baixam pH) e têm efeito antifúngico. Não baixam GH. Para baixar GH precisa de água de osmose, água da chuva filtrada ou turfa em quantidade significativa no filtro — e mesmo turfa baixa pouco e satura.

KH baixo é problema sozinho?

Sim, em aquário com CO2 injetado e/ou bioload alto. KH baixo (≤2) sem CO2 é estável; KH baixo com CO2 oscila pH facilmente e mata camarão e peixe sensível. Estabilizar KH em 3–4 com bicarbonato de sódio (com cálculo, não chute) é manejo defensável.

Vale a pena medir a água da torneira ou pego de relatório?

Mede você mesmo. Companhias publicam médias de saída de estação de tratamento — entre a estação e sua torneira tem reservatório, tubulação antiga e mistura com outro manancial. Diferença de 2–3 °dGH entre relatório e torneira é comum.

Fontes

F

Escrito por

Felipe Camargo

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

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