GH e KH da torneira no Brasil: o mapa que decide quais peixes você consegue manter
A dureza da água da sua cidade já decidiu, antes de você entrar na loja, quais peixes vão prosperar. Comparativo prático entre capitais brasileiras e o que cada faixa permite.
Recebo isso semanal: “Felipe, comprei um cardume de discus e em 3 semanas perdi 5 peixes. A água da torneira não tinha cloro.” Pergunto o GH. Silêncio. Pergunto a cidade. “Recife.” Aí o problema deixa de ser misterioso. A água tratada de boa parte do Nordeste sai do tratamento com GH alto e KH alto — o oposto exato do que o discus precisa. Não era cloro. Era a química básica que ninguém te falou antes de você gastar R$ 1.200 em peixe.
O que importa decidir antes de escolher peixe
Antes de comprar qualquer espécie sensível à dureza, três medidas mandam:
- GH (dureza geral) — concentração de íons cálcio e magnésio. Define quais peixes regulam osmoticamente bem. Unidade: °dGH (graus alemães) ou ppm. Conversão: 1 °dGH ≈ 17,9 ppm.
- KH (dureza de carbonatos) — capacidade tampão da água. Estabiliza pH. KH baixo + CO2 = pH cambaleante e peixe estressado.
- pH — consequência, não causa. pH “ideal” para discus (5,5–6,5) só se mantém estável se KH for baixo.
Compre teste de gota (kits Sera, JBL, Red Sea — entre R$ 60 e R$ 140 cada). Fita seca mente.
Tabela — GH e KH típicos por cidade (água tratada)
Os números abaixo são faixas observadas por aquaristas brasileiros e por relatórios técnicos das companhias de saneamento. Variam por bairro, época e manancial — sempre confirme medindo na sua torneira, principalmente em capitais que misturam fontes (São Paulo, Rio).
| Cidade | GH (°dGH) | KH (°dKH) | pH típico | Perfil |
|---|---|---|---|---|
| São Paulo (Sabesp — Cantareira) | 3–6 | 2–4 | 6,8–7,2 | Mole-média, fácil de ajustar |
| Rio de Janeiro (Cedae — Guandu) | 4–7 | 3–5 | 7,0–7,4 | Média |
| Belo Horizonte (Copasa) | 3–5 | 2–4 | 7,0–7,3 | Mole-média |
| Curitiba (Sanepar) | 2–4 | 2–3 | 6,9–7,2 | Muito mole — quase pronta pra discus |
| Porto Alegre (DMAE) | 3–5 | 2–4 | 7,0–7,3 | Mole-média |
| Brasília (Caesb) | 4–7 | 3–5 | 7,1–7,4 | Média |
| Salvador (Embasa) | 6–10 | 4–7 | 7,4–7,8 | Dura |
| Recife (Compesa) | 7–14 | 5–10 | 7,5–8,1 | Dura a muito dura |
| Fortaleza (Cagece) | 8–14 | 5–9 | 7,6–8,0 | Dura |
| Manaus (Águas de Manaus) | 1–3 | 1–2 | 5,5–6,5 | Muito mole, ácida — terra do discus |
Fonte cruzada: relatórios anuais de qualidade das companhias de saneamento + medições reportadas por aquaristas em fóruns brasileiros (Pet Cube Brasil, Aquaa2a). O WHO Hardness in Drinking-water descreve a metodologia padrão de classificação que aplico nessa tabela.
O que cada faixa de GH permite
| Faixa GH | Classificação | Peixes que prosperam | Peixes que sofrem |
|---|---|---|---|
| 0–4 °dGH | Muito mole | Discus, escalar selvagem, neon cardinal, bettas, killifish, apistogramma | Vivíparos (guppy, platy, molly) — osmorregulação ruim |
| 4–8 °dGH | Mole a média | Tetras, corydoras, otocinclus, gourami, escalar comum, peixe-anjo | Vivíparos no limite, mas dá |
| 8–12 °dGH | Média a dura | Guppy, platy, molly, ciclídeos americanos não-amazônicos, peixe-dourado | Discus, neon, killifish (mortalidade alta) |
| 12+ °dGH | Dura a muito dura | Ciclídeos africanos (Malawi, Tanganyika), goodeídeos, mollys-do-mar | Tudo da Amazônia |
Repare: ciclídeo africano em Recife/Fortaleza/Salvador é praticamente plug-and-play da torneira (com tratamento de cloro). Discus em Recife exige osmose reversa ou desistência. Esse é o ponto que ninguém posta nos grupos.
Minha escolha e por quê
Mantenho aquário plantado de 400L em uma cidade com GH em torno de 5 e KH em torno de 3. Para mim, isso decidiu o estoque: tetras-cardinais, otocinclus, corydoras-pigmeus, apistogramma cacatuoides. Não tento discus porque o KH baixo combinado com injeção de CO2 já me dá pH oscilante o suficiente — discus exige controle mais fino do que minha rotina permite. Tentei goldfish na adolescência aquarista; abandonei por incompatibilidade com plantas e por ciclo de bioload completamente diferente.
Quem tem torneira na faixa de Recife/Fortaleza/Salvador e quer discus: precisa de osmose reversa (filtro RO produz água quase 0 GH/KH) + remineralizador (Salty Shrimp Discus, Seachem Equilibrium ou similares). Custo de osmose doméstica: R$ 600–1.500 dependendo da membrana e do estágio. Pesa contra os R$ 1.200 do discus.
FAQ
Posso baixar GH com folha de amendoeira / barbatimão?
Folhas de amendoeira liberam taninos que acidificam levemente (baixam pH) e têm efeito antifúngico. Não baixam GH. Para baixar GH precisa de água de osmose, água da chuva filtrada ou turfa em quantidade significativa no filtro — e mesmo turfa baixa pouco e satura.
KH baixo é problema sozinho?
Sim, em aquário com CO2 injetado e/ou bioload alto. KH baixo (≤2) sem CO2 é estável; KH baixo com CO2 oscila pH facilmente e mata camarão e peixe sensível. Estabilizar KH em 3–4 com bicarbonato de sódio (com cálculo, não chute) é manejo defensável.
Vale a pena medir a água da torneira ou pego de relatório?
Mede você mesmo. Companhias publicam médias de saída de estação de tratamento — entre a estação e sua torneira tem reservatório, tubulação antiga e mistura com outro manancial. Diferença de 2–3 °dGH entre relatório e torneira é comum.
Fontes
Escrito por
Felipe Camargo
Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.


