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quarta-feira, 9 de setembro de 2026
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Cachorro comendo fezes: o que a ciência sabe sobre coprofagia canina

Cão que come cocô no parque não é falta de educação. Pesquisa da UC Davis com mais de 1.500 tutores mostra por que os produtos de pet shop quase nunca funcionam — e o que funciona de verdade.

Dra. Mariana Tessari 7 min de leitura
Cachorro cheirando o chão em um parque gramado, focinho baixo, durante um passeio
Cachorro cheirando o chão em um parque gramado, focinho baixo, durante um passeio

Uma tutora entrou no consultório segurando a guia com a mão esticada, quase com nojo dela mesma. “Doutora, ele comeu cocô de outro cachorro no parque de novo. Já tentei de tudo — abacaxi na ração, spray amargo, bronca na hora. Ele é feliz, brinca, come normal em casa. Só faz isso lá fora. Eu tô fazendo alguma coisa errada?”

Não estava. E essa culpa é o primeiro mal-entendido que preciso desfazer toda vez que esse assunto chega no consultório. Em 2018, um grupo da Universidade da Califórnia em Davis publicou a maior pesquisa já feita sobre o tema, com mais de 1.500 tutores respondendo — e o resultado bagunçou boa parte do que se dizia até então sobre coprofagia canina, inclusive pra quem trata cachorro há anos.

O que a pesquisa descobriu

O estudo, liderado por Benjamin Hart e publicado na revista Veterinary Medicine and Science, comparou cães que comem fezes com cães que não comem, e depois testou a eficácia real de 11 produtos vendidos pra resolver o problema. Alguns números surpreendem quem nunca ouviu falar do assunto fora do consultório:

  • 23% dos cães já foram flagrados comendo fezes pelo menos uma vez; 16% fazem isso de forma repetida (6 vezes ou mais).
  • 85% preferem fezes frescas — de até 2 dias. Isso não é acaso: fezes recentes ainda carregam resíduo de nutrição, o que aponta pra um comportamento com raiz de forrageamento, não de sujeira aleatória.
  • Sexo e idade não fazem diferença estatística entre cães que comem e os que não comem — cai por terra a ideia de que é “coisa de fêmea” ou “coisa de filhote”.
  • A associação mais forte encontrada foi outra: 51% dos cães coprófagos são descritos pelo tutor como “comilões ansiosos”, contra 28% entre os que não comem fezes. O traço de personalidade que mais prevê o comportamento é a voracidade alimentar geral, não uma causa específica isolada.
  • E o dado que mais me interessa passar pro tutor: os produtos vendidos em pet shop pra “parar” coprofagia — aqueles que se adicionam à comida pra deixar a fezes com gosto ruim — tiveram taxa de sucesso entre 0% e 2% entre os 11 testados. Correção comportamental na hora do flagrante também rendeu só 1% a 4% de sucesso.

Uma raça chamou atenção dos pesquisadores: 41% dos Shetland Sheepdogs (Spitz-alemão anão, no Brasil) da amostra eram coprófagos, contra nenhum Poodle. Isso não é regra fechada — é amostra de pesquisa, não censo — mas reforça que existe componente de temperamento e não só de treino malfeito.

Por que isso importa pro seu cão (e pro seu bolso)

O detalhe que muda a conduta prática é este: cachorro que come fezes de outro cachorro raramente está fazendo isso por falta de nutriente na própria dieta. É atração natural por resíduo — um resquício comportamental que os cães herdaram de ancestrais que limpavam a toca comendo fezes de filhote pra evitar atrair predador pelo cheiro. Cadela que come fezes dos próprios filhotes recém-nascidos está fazendo exatamente isso — é comportamento materno normal, não sinal de doença, e some sozinho quando os filhotes começam a desmamar.

Isso não significa ignorar. Antes de qualquer conduta comportamental, o exame descarta causas médicas reais: parasitose intestinal (a mais comum em filhote), má absorção por insuficiência pancreática, diabetes e Cushing — que aumentam o apetite de forma geral — e dietas mal balanceadas ou com restrição calórica exagerada, que deixam o cão com fome verdadeira. Atendi um Beagle de 3 anos que comia fezes havia meses; o tutor já tinha trocado de ração duas vezes sem melhora. O hemograma e a dosagem de tripsina imunorreativa fecharam insuficiência pancreática exócrina — o cão comia fezes porque não estava absorvendo os nutrientes da própria comida, por mais que comesse bem. Tratada a causa, a coprofagia sumiu em três semanas, sem nenhum spray amargo envolvido.

Esse é o ponto que a pesquisa da UC Davis confirma com número: gastar em produto de pet shop antes de descartar causa médica é jogar dinheiro fora com 98% de chance de não resolver nada. Se o seu cão come fezes e também está bebendo muita água ou emagrecendo mesmo comendo bem, isso pesa mais na suspeita de causa metabólica do que na hipótese comportamental pura.

O que fazer com isso agora

Depois de descartar causa médica com o veterinário — inclusive vermifugação em dia, porque cão coprófago reinfesta a si mesmo com parasitas —, o manejo prático que funciona de verdade é gestão de ambiente, não punição:

  1. Recolha rápido. Limpar o quintal e retirar as fezes do próprio cão em até alguns minutos reduz a oportunidade — sem oportunidade, não tem comportamento.
  2. Reforce o “vem” e o “solta”. No parque, um comando de recall bem treinado interrompe a aproximação antes do cão abaixar a cabeça. Se seu cão ainda não tem esse comando confiável, vale revisar os comandos básicos de adestramento positivo antes de tentar corrigir a coprofagia isoladamente.
  3. Não dê bronca no flagrante. A pesquisa mostrou isso funcionando em só 1 a 4% dos casos — e correr atrás do cão gritando costuma virar um jogo de “quem pega o prêmio primeiro”, que piora a pressa de comer.
  4. Avalie a qualidade real da dieta, não só a quantidade. Ração pouco digestível deixa mais resíduo não digerido nas próprias fezes do cão — o que as torna mais “atraentes” pra ele mesmo. Se você está decidindo entre opções pra filhote, como escolher ração de filhote por proteína e cálcio entra direto nesse cálculo.
  5. Ensine “deixa” com reforço positivo, trocando a fezes por um petisco de valor alto assim que o cão desvia o focinho — não é suborno, é criar uma associação nova que compete com o hábito antigo.

Um comportamento parecido, embora com origem diferente, é o cão que come grama sem parar — se isso for algo que preocupa você também, vale entender quando comer grama é normal ou sinal de algo maior, porque os dois hábitos costumam ser confundidos, mas pedem observação diferente.

Onde a paciência do tutor esbarra

Coprofagia por temperamento — o caso mais comum segundo a pesquisa — não tem cura garantida, só manejo. Alguns cães melhoram muito com gestão de ambiente; outros continuam fazendo isso esporadicamente a vida toda, mesmo com dieta ótima e tutor presente. Isso não é fracasso do tutor nem do veterinário — é um traço que convive com o cão, do mesmo jeito que alguns cães sempre vão puxar na guia mais que outros. O objetivo realista não é “zerar” o comportamento, é reduzir a frequência e garantir que não existe causa médica escondida atrás dele.

Perguntas frequentes

Cachorro que come fezes de outro cão pode pegar verme ou doença? Sim — é uma das formas de transmissão de parasitas intestinais e, mais raramente, de alguns vírus. Por isso a vermifugação regular do próprio cão importa mesmo quando o comportamento parece “só nojento”.

Existe remédio que faz o cachorro parar de comer cocô? Não existe medicação aprovada especificamente pra isso. Os aditivos alimentares vendidos com essa promessa tiveram sucesso quase nulo no estudo citado. O caminho real é descartar causa médica e trabalhar manejo comportamental.

É normal cadela comer as fezes dos próprios filhotes? Sim, é comportamento materno instintivo nas primeiras semanas e costuma parar sozinho perto do desmame — não precisa de intervenção.

Fontes

D

Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

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