Cachorro tendo convulsão: o que fazer na crise (e o erro que pode te machucar)
Passo a passo do que fazer durante uma convulsão canina, quando é emergência de verdade, o que NÃO fazer e como descrever a crise pro vet. Com critérios do MSD Vet Manual, AKC e ACVIM.
A pior ligação que recebo no consultório não é a do tutor desesperado. É a do tutor que filmou. Porque quem filma já passou pelo susto, já viu o cachorro voltar a respirar normal, e agora quer entender o que aconteceu — e essa pessoa, nove em cada dez vezes, fez tudo certo sem saber. O problema é o tutor que tenta “ajudar” enfiando a mão na boca do cão pra “evitar que ele engula a língua”. Esse é o que aparece na consulta com o dedo enfaixado.
Convulsão em cachorro é uma das cenas mais assustadoras que um tutor pode presenciar. O corpo enrijece, as patas remam no ar, sai saliva, às vezes urina e fezes. Parece que o cão está morrendo. Quase sempre, não está. O que você faz nos próximos 90 segundos importa menos pra crise em si — e muito mais pra sua segurança e pro que o vet vai conseguir tratar depois.
O que decidir nos primeiros segundos
Quando o cão convulsiona, você precisa responder três perguntas, nesta ordem:
- Ele está em risco físico imediato? (perto de escada, água, móvel que pode cair em cima)
- Quanto tempo já dura a crise? (esse número decide se é emergência agora ou consulta amanhã)
- É a primeira vez? (primeira convulsão sempre merece avaliação, mesmo que curta)
Tudo o que vem a seguir é detalhamento dessas três. Guarde-as.
O passo a passo durante a crise
A maioria das convulsões generalizadas dura entre 30 segundos e 2 minutos e termina sozinha (MSD Veterinary Manual, Seizures in Dogs, 2024). Nesse tempo, o seu trabalho não é parar a crise — você não consegue. É proteger o cão e cronometrar.
Faça, nesta ordem:
- Olhe o relógio. Anote a hora de início. Parece frio, mas é o dado mais importante que você vai dar ao vet. Sua percepção de tempo durante uma convulsão está sempre distorcida — o que parecem 5 minutos costumam ser 40 segundos.
- Afaste o perigo, não o cão. Tire móveis, cadeiras, objetos pontiagudos do caminho. Se ele estiver perto de escada ou piscina, puxe-o pelas patas traseiras ou pela base do rabo, longe da cabeça e da boca.
- Diminua o estímulo. Apague a luz forte, abaixe o som, peça silêncio. Cérebro em crise é cérebro hiperestimulado.
- Filme, se houver outra pessoa. Vídeo de 20 segundos vale mais que qualquer descrição. O neurologista veterinário consegue diferenciar tipos de crise olhando o vídeo.
- Fale baixo e calmo. Mais por você do que por ele — durante a crise generalizada o cão não está consciente nem ouve você. Mas a calma evita que você faça besteira.
O que NUNCA fazer (e por quê)
Aqui é onde os mitos matam — ou pelo menos machucam.
Não coloque a mão na boca dele. O cachorro NÃO vai engolir a língua. É anatomicamente impossível por causa do frênulo lingual. O que vai acontecer é você levar uma mordida de fechamento mandibular involuntário — força de centenas de quilos por centímetro quadrado, sem o cão ter culpa nenhuma. Eu já vi tutor com falange fraturada por isso.
Não tente segurar o corpo dele com força. Conter o movimento não encurta a crise e aumenta o risco de lesão muscular — tanto dele quanto sua.
Não dê água, comida nem remédio pela boca durante a crise. O cão pode aspirar pro pulmão. Medicação de emergência durante crise prolongada existe (diazepam retal/intranasal), mas é prescrita e treinada pelo vet caso a caso — não é improviso.
Não acorde bruscamente o cão no pós-crise. Depois da convulsão vem a fase pós-ictal: ele pode ficar desorientado, cego temporariamente, andar em círculos, não te reconhecer, ter fome ou medo extremo. Isso dura de minutos a horas. Deixe-o se recuperar num canto seguro e silencioso.
Quando é emergência de verdade
Nem toda convulsão exige corrida pra clínica 24h naquele segundo. Mas estas situações exigem — vá imediatamente:
| Situação | Por que é urgência |
|---|---|
| Crise dura mais de 5 minutos | É status epilepticus — risco de morte por hipertermia e lesão cerebral |
| Mais de uma crise em 24h sem o cão recuperar consciência entre elas | Crises “em cluster” — exigem controle medicamentoso urgente |
| Primeira convulsão da vida | Precisa descartar causa grave (intoxicação, tumor, hipoglicemia) |
| Convulsão após acesso a veneno, chocolate, xilitol ou medicação humana | Pode ser intoxicação — antídoto tem janela de tempo |
| Cão não volta ao normal após 30-60 min do fim da crise | Pós-ictal prolongado pode mascarar problema sério |
O status epilepticus — crise contínua de 5 minutos ou mais — é a única situação em que cada minuto literalmente conta. A temperatura corporal dispara, os neurônios começam a morrer, e o tratamento precisa ser intravenoso na clínica. Segundo o consenso do ACVIM (American College of Veterinary Internal Medicine) sobre epilepsia canina, crises prolongadas e em cluster pioram o prognóstico de longo prazo — controlar cedo muda o jogo.
O que causa convulsão — e por que “epilepsia” não é a primeira resposta
Tutor ouve “convulsão” e pensa “epilepsia”. Mas epilepsia idiopática (sem causa estrutural detectável) é diagnóstico de exclusão — só se fecha depois de descartar o resto. As causas se dividem em três grandes grupos:
- Fora do cérebro (extracranianas): hipoglicemia, doença hepática, intoxicação (chocolate, xilitol, organofosforados, isca de caramujo), insolação. Aqui a crise é um sintoma de outro problema — e casos recentes de contaminação de ração por micotoxina e recall sanitário entram nessa lista de gatilhos tóxicos que o tutor raramente associa a uma convulsão.
- Dentro do cérebro (intracranianas estruturais): tumor, sequela de cinomose, encefalite, trauma, malformação. Mais comum em cães que têm a primeira crise antes de 1 ano ou depois de 6 anos.
- Epilepsia idiopática: o cérebro é estruturalmente normal, mas tem predisposição a descargas elétricas anormais. É a causa mais comum em cães entre 1 e 5 anos, e raças como Border Collie, Pastor Australiano, Beagle, Golden e Labrador têm maior incidência (American Kennel Club, Dog Seizures, 2024).
A idade da primeira crise é a pista mais barata e mais ignorada. Um Beagle de 3 anos com crise isolada e exame normal entre crises tem perfil clássico de epilepsia idiopática. Um SRD de 9 anos com primeira crise da vida precisa de exame de imagem antes de qualquer suposição — a probabilidade de tumor sobe muito.
Minha conduta no consultório — e o que peço pro tutor
Quando chega um cão com histórico de convulsão, eu não saio receitando anticonvulsivante na primeira crise isolada. A maioria dos protocolos só inicia medicação contínua quando há mais de uma crise em 6 meses, crises em cluster ou status. Antes disso, o foco é investigar a causa: exame neurológico, hemograma, bioquímico (glicose, função hepática e renal), e — conforme idade e achados — ressonância e análise de líquor.
O que eu mais valorizo é o “diário de crises” do tutor: data, hora, duração, como começou, o que o cão fez antes (estava comendo? dormindo? acabou de tomar banho?), e o vídeo. Esse diário define se a doença está controlada ou progredindo melhor que qualquer exame de rotina.
Um detalhe que conecta com outro tema importante: cão que convulsiona repetidamente sem causa aparente, especialmente filhote ou raça gigante, merece olhar pra desenvolvimento ósseo e articular também — quem investiga neurologia em raça grande já está no terreno de quem deveria conhecer os sinais de displasia coxofemoral em filhote de raça grande, porque são animais que demandam acompanhamento multissistêmico precoce.
FAQ
Cachorro pode morrer de convulsão?
Uma crise isolada de até 2 minutos raramente é fatal. O risco real está no status epilepticus (crise contínua de 5+ minutos) e nas crises em cluster, que podem causar hipertermia grave e lesão cerebral. Por isso a regra dos 5 minutos: passou disso, é corrida pra clínica.
Como saber se foi convulsão mesmo ou outra coisa?
Síncope (desmaio cardíaco), tremores e crises de dor podem se parecer com convulsão. A convulsão generalizada clássica tem perda de consciência, rigidez ou movimentos de remada, salivação e frequentemente perda de urina/fezes, seguida de fase pós-ictal de desorientação. Vídeo é o que resolve a dúvida — leve pro vet.
Comida ou ração pode causar convulsão no cachorro?
Diretamente, não — mas intoxicação alimentar pode. Xilitol (adoçante em balas, pasta de dente, alguns alimentos “diet”), chocolate, cafeína e ração contaminada por micotoxina são gatilhos reais de crise. Se o cão teve acesso a algum desses antes da convulsão, avise o vet imediatamente, porque muda totalmente a conduta.
Cachorro com epilepsia idiopática tem vida normal?
Na maioria dos casos, sim. Com diagnóstico correto e medicação contínua bem ajustada, a maior parte dos cães epilépticos tem crises controladas e qualidade de vida boa. O acompanhamento neurológico regular e o diário de crises são o que sustentam esse controle ao longo dos anos.
Fontes
- MSD Veterinary Manual, Seizures in Dogs, acessado em 2026-06-03, https://www.msdvetmanual.com/dog-owners/brain-spinal-cord-and-nerve-disorders-of-dogs/seizures-in-dogs
- American Kennel Club, Dog Seizures: Symptoms, Causes, and Treatment, acessado em 2026-06-03, https://www.akc.org/expert-advice/health/dog-seizures-causes-treatment/
- De Risio L. et al. / ACVIM, International Veterinary Epilepsy Task Force consensus, BMC Veterinary Research, acessado em 2026-06-03, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1186/s12917-015-0464-z
Escrito por
Dra. Mariana Tessari
Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.


