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quarta-feira, 9 de setembro de 2026
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Cachorro idoso confuso à noite: pode ser demência canina

Cão sênior anda sem rumo, esquece comandos ou perde o dono de vista dentro de casa. Novo protocolo internacional DISHAA ajuda a diferenciar demência canina de envelhecimento normal.

Dra. Mariana Tessari 7 min de leitura
Cachorro idoso deitado no chão da sala, com expressão cansada e olhar distante
Cachorro idoso deitado no chão da sala, com expressão cansada e olhar distante

Semana passada uma tutora me trouxe a Bilu, uma vira-lata de 13 anos, com uma queixa que ouço cada vez mais em cães sêniores: “Doutora, ela fica andando pela casa de madrugada, parada olhando pra parede, e às vezes não me reconhece quando eu chego perto”. A primeira suspeita de qualquer tutor é surdez ou catarata. Às vezes é isso mesmo. Mas em dezembro de 2025 um grupo internacional de 11 especialistas publicou, no Journal of the American Veterinary Medical Association, a primeira definição formal e um protocolo padronizado pra diagnosticar o quadro da Bilu — a síndrome de disfunção cognitiva canina, o equivalente do cão à demência humana. Esse protocolo ainda não circulou nos blogs de pet em português — e muda a forma como um tutor deveria observar o próprio cão idoso, antes de aceitar “é coisa da idade” como resposta final.

A versão de 30 segundos

A síndrome de disfunção cognitiva canina (CCDS, na sigla em inglês) é uma doença neurodegenerativa progressiva parecida com o Alzheimer humano — com as mesmas placas de proteína beta-amiloide se acumulando no cérebro e prejudicando a comunicação entre neurônios, segundo o grupo de trabalho descrito pela American Veterinary Medical Association (AVMA). Ela afeta mais da metade dos cães a partir dos 15 anos: a pesquisa mostra que cerca de 60% dos cães dessa idade apresentam algum sinal, e 20% já têm um quadro patológico severo. Não tem cura. Mas tem manejo — e diagnóstico precoce muda o quanto o cão sofre no caminho.

O protocolo novo resolve um problema prático: até agora não existia um jeito padronizado de dizer “isso é CCDS” versus “isso é só cão ficando velho e devagar”. A ferramenta que resolve essa dúvida se chama DISHAA.

Conceito 1 — O acrônimo DISHAA, traduzido pra quem convive com o cão

DISHAA foi desenvolvido pelo comportamentalista Dr. Gary Landsberg e adotado pela AVMA como núcleo do novo protocolo. São seis categorias de comportamento que, juntas, apontam pra disfunção cognitiva:

LetraCategoriaO que o tutor observa em casa
DDisorientation (desorientação)Cão vai pro lado errado da porta, fica parado olhando pro vazio, não reconhece dono ou ambiente familiar
IImpaired social interactions (interação social alterada)Cão sociável fica arredio, ou o oposto — vira carente e grudento sem motivo aparente
SSleep disturbances (sono alterado)Inquietação e latido à noite, sono excessivo durante o dia — inverte o ciclo
HHouse soiling / learning (sujar a casa / aprendizado)Cão treinado começa a fazer necessidade dentro de casa, esquece comandos que já sabia
AActivity changes (mudança de atividade)Menos disposição pra brincar, ou o contrário — andar em círculos sem propósito, repetitivo
AAnxiety (ansiedade)Medo novo de barulho, inquietação geral, agitação sem gatilho claro

Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. Um cão que dorme mais durante o dia pode só estar cansado. O que acende o alerta é o padrão se repetindo em 2 ou mais categorias, de forma progressiva, ao longo de semanas — não um dia ruim isolado.

Conceito 2 — Os 3 estágios e por que a gravidade muda a conduta

O grupo de trabalho propôs três estágios baseados no impacto funcional, não só na presença do sinal:

  • CCDS leve: mudanças sutis, pouco frequentes, o cão ainda mantém a rotina funcionando normalmente. É o estágio em que intervir rende mais.
  • CCDS moderada: sinais mais frequentes, já atrapalham atividades do dia a dia — o tutor precisa ajustar rotina, ambiente ou supervisão.
  • CCDS severa: déficits evidentes e incapacitantes, o cão precisa de suporte pra funções básicas (comer, se orientar, dormir com regularidade).

A recomendação do grupo — que eu adotei na minha rotina de consultório desde que o protocolo saiu — é fazer uma triagem comportamental simples em todo cão a partir dos 7 anos, com um formulário curto de saúde sênior. A partir dos 10 anos (ou antes, se o tutor já notou mudança), o questionário DISHAA completo deveria ser preenchido a cada 6 meses, sempre pela mesma pessoa que convive com o cão — porque quem vê o animal todo dia percebe a progressão que uma consulta pontual não captura.

Conceito 3 — Por que o diagnóstico é sempre “de exclusão”

Aqui está o ponto que mais gera diagnóstico errado no consultório: CCDS só pode ser confirmada depois de descartar outras causas com sintomas parecidos. Dor articular, doença renal, hepatopatia, infecção urinária e até tumor cerebral produzem os mesmos sinais — cão confuso, cão que suja a casa, cão inquieto à noite.

No caso da Bilu, antes de fechar CCDS pedi hemograma, bioquímico e exame ortopédico completo. Achei uma artrose moderada no joelho que, sozinha, já explicava parte da inquietação noturna — o desconforto de deitar piorava à noite e ela ficava andando pra evitar a dor. Tratada a artrose, a inquietação melhorou, mas a desorientação em ambiente familiar continuou. Isso reforçou CCDS associado, não CCDS sozinha explicando tudo.

Essa sobreposição é a regra, não a exceção, em cão idoso — por isso eu sempre reviso sinais de dor em cachorro antes de assumir que uma mudança de comportamento é só cognitiva, do mesmo jeito que reviso a rotina alimentar quando um cão idoso deixa de comer.

Onde isso falha (e o que ainda não temos)

O protocolo DISHAA é um avanço real, mas depende do relato do tutor — não existe exame de sangue ou de imagem que confirme CCDS sozinho. Ressonância mostra atrofia do córtex cerebral, mas é cara, exige anestesia num cão idoso e só é indicada com sinal neurológico focal ou convulsão nova, não como triagem de rotina. A própria AVMA reconhece que biomarcadores de sangue e testes cognitivos simples ainda estão em desenvolvimento.

Na prática de hoje, o diagnóstico depende de três coisas: tutor que observa com atenção, veterinário que descarta comorbidades com cuidado, e tempo — CCDS é progressiva e um único exame não fecha o quadro. Latido noturno isolado, por exemplo, também aparece por ansiedade comportamental sem relação cognitiva nenhuma, como detalhei em por que cachorro late muito e o que realmente ajuda.

Não existe cura pra demência canina. O manejo combina suplementação (ômega-3, vitamina E, SAM-e — sempre com indicação veterinária), ajuste ambiental (luz noturna, rotina fixa, evitar mudar móveis de lugar) e, em alguns casos, medicação prescrita como a selegilina. O objetivo realista não é reverter — é desacelerar a progressão e manter o cão confortável no tempo que ele tem.

Perguntas frequentes

A partir de que idade o cão pode ter demência canina? Sinais começam a aparecer com mais frequência a partir dos 10-11 anos, mas a prevalência dispara depois dos 15: cerca de 28% dos cães de 11-12 anos e 68% dos cães de 15-16 anos apresentam algum sinal, segundo estudo citado pelo PetMD.

Cachorro com demência canina sofre? Pode sofrer, principalmente na desorientação e na ansiedade que ela gera — um cão que se perde dentro da própria casa fica genuinamente angustiado. Por isso o manejo ambiental (evitar mudanças bruscas, manter rotina) reduz sofrimento mesmo sem curar a doença.

Existe exame de sangue pra confirmar demência canina? Ainda não. O diagnóstico atual é clínico, por exclusão de outras doenças e observação do padrão de comportamento ao longo do tempo — biomarcadores de sangue estão em pesquisa, mas não são rotina ainda.

Fontes

D

Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

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