sábado, 30 de maio de 2026
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Otite no cão em 2026: Malassezia já resiste ao miconazol

Estudo de 2026 mostra Malassezia pachydermatis com suscetibilidade reduzida ao miconazol. O que muda na otite externa do cachorro no outono brasileiro.

Dra. Mariana Tessari 6 min de leitura
Médica veterinária examina o conduto auditivo de um cachorro de orelhas caídas em consultório
Médica veterinária examina o conduto auditivo de um cachorro de orelhas caídas em consultório

Atendi semana passada uma Cocker de 6 anos que voltava pela terceira vez no ano com a mesma orelha vermelha, malcheirosa, dolorida. O tutor já tinha pingado três frascos diferentes de gotinha auricular comprada em pet shop. Quando colhi a citologia, apareceu o que eu suspeitava: Malassezia pachydermatis em altíssima carga — e a história clínica da cadela apontava pra falha terapêutica com miconazol, o antifúngico mais comum nas pomadas otológicas brasileiras.

Não é caso isolado. Um estudo publicado em 2025 na Veterinary Dermatology mostrou que cepas de M. pachydermatis isoladas de cães com otite externa já apresentam suscetibilidade reduzida — em alguns isolados, resistência clínica — ao miconazol e ao clotrimazol, os azólicos mais usados no consultório de pequenos animais no Brasil. O dado é compatível com o que a Dermaconecta tem alertado pra dermatologistas veterinários ao longo de 2026.

A tese: a “gotinha de orelha” virou plug-and-pray

Vou ser direta. A combinação genérica miconazol + neomicina + dexametasona que tutor compra no balcão é hoje o equivalente veterinário ao uso indiscriminado de amoxicilina que cancelou a azitromicina lá nos anos 2000. Funciona em alguns casos. Falha em muitos. E a falha repetida treina a Malassezia e a Pseudomonas a sobreviverem.

Não estou dizendo pra parar de tratar otite — estou dizendo que o protocolo nacional precisa ser citologia antes da gota. E o tutor precisa entender que orelha-de-cocker que volta pela quarta vez não é “tendência da raça”: é diagnóstico mal feito.

Evidência 1 — o estudo brasileiro do hospital da UFRPE

Um levantamento publicado pelo Brazilian Journal of Animal and Environmental Research no Hospital Veterinário da UFRPE avaliou os atendimentos por otite externa: a prevalência foi compatível com a literatura internacional (5–20% dos cães em consulta), com Malassezia isolada em mais de 70% das otites uni-microbianas. Em paralelo, a Royal Canin Portal Vet descreve que otite externa canina é hoje uma das três queixas dermatológicas mais frequentes — mas o que muda em 2026 é a resposta ao tratamento padrão, não a frequência.

Evidência 2 — o gatilho do outono brasileiro

A Climatempo projeta um outono mais quente que a média histórica em 2026, com umidade elevada em maio e junho em São Paulo, Rio de Janeiro e Sul. Malassezia é uma levedura lipofílica e adora umidade + cera + calor de canal auditivo de raça de orelha caída (Cocker, Basset, Beagle, Labrador). É por isso que o pico clínico de otite no Brasil é entre março e julho — não no calor de janeiro como muito tutor imagina.

Evidência 3 — o que mudou no manejo

Resumi a comparação entre o que ainda se ensina e o que a literatura de 2025–2026 vem pedindo:

ItemProtocolo antigo (≤2020)Protocolo atualizado (2025–2026)
Diagnóstico inicialOtoscopia + tratamento empíricoOtoscopia + citologia obrigatória
Antifúngico de 1ª linhaMiconazol ou clotrimazolPosaconazol ou terbinafina em casos recorrentes
Limpeza auricularSolução genérica álcool-baseCerumenolíticos (ácido salicílico + ácido lático)
Duração do tratamento7–10 dias14–21 dias com reavaliação citológica
Causa primáriaTratar só sintomaInvestigar atopia, alergia alimentar, hipotireoidismo

Esse último ponto é o que ninguém comenta: otite externa recorrente quase nunca é otite primária. É manifestação periférica de dermatite atópica canina — e tem relato de caso publicado no Pubvet mostrando exatamente isso. Trata otite por 4 anos sem investigar atopia e o canal vira osso (otite crônica estenosante, cirurgia de TECA-LBO, R$ 4–7 mil).

O contra-argumento honesto

Justiça seja feita: na maioria dos casos agudos primários — primeiro episódio no cão jovem, sem doença sistêmica, sem cronicidade — o miconazol ainda funciona. O estudo de resistência não diz “azólico não serve mais”. Diz “o azólico não deve ser primeira escolha cega em otite recorrente”. E aqui mora a diferença: um cão com terceira otite no ano não merece a quarta gotinha de balcão. Merece citologia, cultura quando indicado, e revisão da dieta e da função tireoidiana.

Onde isso te leva, na prática

Se o seu cão é Cocker, Bulldog Francês, Lhasa, Shih Tzu, Labrador, Golden, Basset — ou qualquer raça de orelha caída/dobra — e teve mais de 2 episódios de otite em 12 meses, leve pra avaliação dermatológica, não pro clínico geral. Citologia auricular custa entre R$ 40 e R$ 90 na maioria das clínicas (dado CRMV-SP sobre referenciais de honorários veterinários) e muda 100% a decisão terapêutica.

E pare com a limpeza diária com água oxigenada ou álcool, por favor. A PetDerma tem reforçado que limpeza errada causa otite, não previne. Cotonete dentro do canal é o equivalente a empurrar cera com bomba.

Sinais de quando levar agora ao vet

  • Cachorro balançando a cabeça insistente, com lateralização da postura.
  • Mau odor forte, secreção marrom-escura ou amarelada.
  • Pelo retido na orelha grudado pela secreção.
  • Dor à manipulação do pavilhão (cão geme, foge, tenta morder).
  • Tontura, andar em círculos, nistagmo (movimento involuntário do olho) — sinal de otite interna, urgência.

O que mudou na consulta de dermatologia em 2026

Pra dar um exemplo concreto: três anos atrás, a primeira consulta de otite recorrente em consultório de pequenos animais saía da sala assim — otoscopia, limpeza com solução, prescrição de gota auricular tópica empírica (algum azólico + antibiótico + corticoide), retorno em 14 dias. Em 2026, o protocolo que tem dado certo na minha rotina inclui: otoscopia, citologia no microscópio na hora (lâmina corada por panótico rápido), classificação do agente predominante (Malassezia? bactéria cocoide? bastonete?), prescrição direcionada, e reavaliação citológica obrigatória ao fim do tratamento — não basta o cão “parar de balançar a cabeça”.

A reavaliação muda muita coisa. Cão fica assintomático em 10 dias, e tutor para o tratamento — mas a Malassezia persiste em carga subclínica no canal. Duas semanas depois, recidiva. O ciclo de seleção de cepa resistente começa exatamente nessa janela. Por isso a Royal Canin Portal Vet e o Inova Hospital Veterinário reforçam tratamento completo + reavaliação.

Outro item que entrou no protocolo é investigação de doença primária: cão com otite recorrente sem causa local óbvia (corpo estranho, parasitose) precisa ter avaliada atopia, alergia alimentar, hipotireoidismo (especialmente em raças predispostas como Cocker, Golden, Labrador) e síndrome de Cushing. Sem corrigir a causa de base, qualquer protocolo tópico no canal vira gato e rato terapêutico.

FAQ

Pode pingar Otomax que o vizinho usou? Não. Otomax (gentamicina + betametasona + clotrimazol) é prescrição e tem indicação específica. Aplicar em otite por Pseudomonas pode mascarar o quadro até virar otite média.

Vinagre na orelha resolve? Não. A solução caseira vinagre + água diminui pH e pode dar alívio temporário em casos muito leves de levedura, mas em otite estabelecida é insuficiente e atrasa o tratamento correto.

Fontes

D

Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

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