Tarântula como pet no Brasil: qual espécie escolher e o que você precisa saber antes de comprar
Tarântulas são legais, baratas de manter e exigem menos espaço que qualquer vertebrado. Mas a escolha da espécie errada para iniciante pode terminar mal para o animal e para o tutor. Guia com comparativo de espécies, legalidade e cuidados reais.
A pergunta que me fazem quando conto que tenho tarântulas é sempre a mesma: “você não tem medo?” A resposta honesta é que eu tinha, nos primeiros três meses. Depois de acompanhar o comportamento de perto, o medo cedeu ao que acontece com todo aracnofílico sério: respeito calibrado por um animal que é muito mais previsível do que parece, desde que você escolha a espécie certa.
O problema é que a maioria das pessoas não escolhe — compra o que o criador tem em estoque, ou pior, o que aparece primeiro no Mercado Livre. E aí sim o negócio pode complicar.
O que você precisa decidir antes de comprar
Não existe “a melhor tarântula para iniciante” no universal. Existe a melhor espécie para o seu perfil. Há cinco critérios que mudam tudo:
1. Temperamento (defensivo vs. calmo) Algumas espécies disparam pelos urticantes à menor perturbação — e isso já é suficiente para arruinar a experiência de quem não esperava. Outras praticamente ignoram a presença humana.
2. Terrestre vs. arborícola Tarântulas terrestres cavam e ficam no substrato. As arborícolas constroem toca em altura, são rápidas e muito menos indicadas para manuseio. Para iniciantes: terrestre, sempre.
3. Velocidade de crescimento Algumas espécies ficam adultas em 18 meses. Outras levam 6 a 8 anos. Isso afeta quanto tempo você fica com uma filhote vulnerável nas mãos.
4. Tamanho adulto Vai de 5 cm (fêmea anã) a 28 cm de envergadura. Tamanho maior não significa mais difícil — mas muda o terrário, o custo da presa e a presença visual.
5. Legalidade no Brasil Espécies nativas precisam de criadouro registrado no IBAMA para serem mantidas legalmente. Espécies exóticas (de outros países) precisam de criadouro registrado para importação. Na prática, o mercado brasileiro tem criadouros licenciados para algumas espécies nativas — comprar de criador com RGE (Registro Geral de Exóticos) ou IBAMA ativo é o caminho seguro. Veja a seção de FAQ abaixo.
Comparativo: 5 espécies para iniciante no Brasil
Levei dois anos montando minha coleção atual de 11 tarântulas. Dessas, testei ou observei de perto todas as espécies abaixo. O ranking é meu — com base técnica, mas assumidamente subjetivo.
| Espécie | Origem | Porte adulto | Temperamento | Velocidade crescimento | Encontra no BR? |
|---|---|---|---|---|---|
| Grammostola pulchripes (Chilean Rose Blonde) | Chile/Argentina | 16–18 cm | Muito calmo | Lento (6–8 anos) | Sim (criadouros) |
| Brachypelma hamorii (Mexican Red Knee) | México | 14–16 cm | Calmo | Moderado (4–5 anos) | Sim (criadouros) |
| Nhandu chromatus (Red & White) | Brasil (nativa) | 18–20 cm | Moderado-defensivo | Moderado (3–4 anos) | Sim (nativa) |
| Grammostola pulchra (Brazilian Black) | Brasil/Argentina | 17–20 cm | Muito calmo | Muito lento (7–10 anos) | Sim (nativa) |
| Acanthoscurria geniculata (Giant White Knee) | Brasil (nativa) | 20–22 cm | Defensivo | Rápido (2–3 anos) | Sim (nativa) |
Notas do comparativo:
- “Muito calmo” = raramente dispara pelos urticantes, tolera manuseio eventual após ambientação.
- “Defensivo” = não indica manuseio rotineiro; espécie para observação em terrário.
- Todos os dados de porte são envergadura de perna (leg span), fêmea adulta.
Minha escolha — e por quê
Se eu tivesse que recomendar uma única espécie para quem nunca teve tarântula, seria a Grammostola pulchripes.
Sim, ela cresce devagar. Mas isso é vantagem para quem está aprendendo: você tem anos para desenvolver a leitura de comportamento antes de lidar com um animal adulto de 18 cm. O temperamento é o mais estável que conheço em Theraphosidae — em oito anos acompanhando a espécie, vi poucas situações de ataque defensivo real, sempre em erros de manuseio claros. E o mercado brasileiro de criadouros tem disponibilidade razoável, o que reduz o risco de comprar de origem duvidosa.
A Grammostola pulchra (a brasileira preta) é esteticamente espetacular e igualmente calma, mas é mais difícil de encontrar em criadouro licenciado e custa mais. Boa segunda opção se você tiver paciência para esperar.
O que eu não recomendo para iniciante: qualquer espécie arborícola (Psalmopoeus, Tapinauchenius, Poecilotheria), qualquer espécie com veneno potencialmente mais sério (Poecilotheria tem registros de efeito sistêmico em humanos) e a Acanthoscurria geniculata, que é bonita mas tem fama bem merecida de temperamento instável.
Setup básico: o que você precisa antes de buscar o animal
O setup de tarântula terrestre iniciante é simples — e barato comparado com qualquer vertebrado. Já vi tutores gastar mais com acessório de hamster do que o necessário aqui.
- Terrário: caixa acrílica ou vidro com tampa telada (ventilação lateral é melhor que superior para terrestres). Volume de 20–30L para adulto médio.
- Substrato: mistura de fibra de coco + vermiculita (60/40), entre 8 e 12 cm de profundidade para espécies que cavam. Mantém umidade sem encharcar.
- Temperatura: 22–26°C é o ideal para a maioria das espécies sul-americanas. No Brasil, a maioria das regiões não precisa de aquecimento adicional — ao contrário de répteis como o dragão-barbudo, que exige basking entre 40–46°C.
- Alimentação: grilos, barata Dubia ou tenébrios. Filhotes comem micro-grilos; adultos comem presa de tamanho proporcional ao abdome. Frequência: a cada 10–14 dias para adultos. Remova o que não for comido em 24 horas.
- Água: pires razo com água fresca. Pequenos filhotes se hidratam com o substrato levemente úmido em um canto.
- Nenhuma luz UV necessária: ao contrário de répteis diurnos como a cobra-de-milho, tarântulas não precisam de UV. Iluminação ambiente do cômodo é suficiente.
Se você está avaliando qual exótico de pequeno porte encaixa melhor no seu estilo de vida, o comparativo entre porquinho-da-índia, coelho e hamster ajuda a entender o espectro de cuidado que cada grupo exige — tarântulas ficam no extremo de baixo custo e baixa demanda de interação social, o oposto do porquinho-da-índia, que não deve ser mantido sozinho.
FAQ
Tarântula é perigosa para humanos? O veneno das espécies disponíveis no mercado brasileiro para iniciante (Grammostola, Brachypelma, Nhandu) provoca efeito local: dor, vermelhão, inchaço por algumas horas. Reação alérgica sistêmica é rara, mas existe — como com qualquer picada de artrópode. O risco mais comum da G. pulchripes, na prática, são os pelos urticantes: arremessados em direção ao rosto, causam irritação intensa nos olhos e nas vias aéreas. Óculos de proteção durante manuseio não é exagero.
Preciso de licença do IBAMA para ter tarântula? Espécies nativas (como Nhandu chromatus e Grammostola pulchra, que ocorrem no Brasil) exigem que o criador de quem você compra tenha criadouro licenciado (CETAS/IBAMA). Você, como tutor, precisa da Nota Fiscal de origem que comprove a legalidade do animal. Espécies exóticas (como Grammostola pulchripes, que é chilena/argentina) seguem legislação de importação — na prática, você encontra via criadouros brasileiros que importaram legalmente. Exija documentação sempre: é proteção para você e para a conservação das espécies silvestres.
Com que frequência preciso lidar com o animal? Não precisa. Tarântula não é pet de interação — é pet de observação. Manuseio eventual é possível com as espécies certas, mas não é necessário para o bem-estar do animal. Se você quer pet que interaja ativamente, reconsidere: um rato doméstico ou porquinho-da-índia entregam isso de forma muito mais satisfatória.
Quanto custa manter por mês? O custo mensal real de uma tarântula adulta é entre R$ 15 e R$ 40 (grilos ou Dubia + substrato se precisar repor). É o pet de menor custo fixo de manutenção que conheço, de vertebrado ou invertebrado.
Fontes
- American Tarantula Society (ATS) — banco de dados de comportamento e cuidados por espécie: atshq.org
- IBAMA — Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBIO): ibama.gov.br
- IUCN Red List — status de conservação de Grammostola pulchripes e G. pulchra: iucnredlist.org
- Pistorio, S. et al. (2002). “Effects of urticating hairs from Brachypelma on human skin and eyes.” Dermatology, 205(2), 168–170.
Escrito por
Felipe Camargo
Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.


