segunda-feira, 6 de julho de 2026
Pets Saudáveis PETS SAUDÁVEIS
Gatos

Esporotricose felina em SP: o boletim de 2026 que assusta

Casos de esporotricose em gatos subiram 37% entre 2022 e 2023 em SP. CVE e CRMV-SP atualizaram o protocolo em 2026. O que tutor precisa fazer agora.

Dra. Mariana Tessari 7 min de leitura
Gato doméstico com lesão cutânea sendo examinado por médica veterinária em consultório
Gato doméstico com lesão cutânea sendo examinado por médica veterinária em consultório

A tutora chegou ao consultório segurando uma toalha enrolada no braço. Por baixo, três nódulos vermelhos em fila — um deles já em ulceração, com aquele aspecto de lesão “que não cicatriza nem com pomada” que é um sinal clínico, não estético. Antes mesmo de eu perguntar, ela disse: “Doutora, é o Mingau. Apareceu uma coisinha no focinho dele há duas semanas e ele me arranhou ontem.” Mingau, gato macho não castrado, três anos, livre acesso à rua nos fundos de uma casa em Itaquera (zona leste de SP). Era esporotricose, com altíssima probabilidade — e a tutora também já tinha contraído.

Esse caso, multiplicado por milhares, é o que o Boletim de Esporotricose de fevereiro de 2026 do CVE-SP está descrevendo: uma zoonose que parou de ser pontual e virou problema sanitário urbano de São Paulo.

O que aconteceu — em números

Os registros da doença em animais eram pontuais até 2010 no estado de São Paulo. A partir de 2011, com o primeiro grande surto identificado na Zona Leste da capital, a curva começou a subir. Entre 2022 e 2023, o número de casos confirmados em animais saltou de 2.417 para 3.309 — alta de 37% em 12 meses, segundo a Secretaria Municipal da Saúde de SP.

A doença é causada principalmente pelo fungo Sporothrix brasiliensis — uma espécie mais agressiva e zoonótica do que a S. schenckii clássica descrita em outros países. 39,9% dos casos humanos confirmados estão associados a felino doméstico próprio, e 3,4% a felino doméstico do vizinho, segundo o levantamento publicado no Portal Cães e Gatos do CRMV-SP. Quase metade das transmissões humanas começa no quintal de casa.

Em 2025, a esporotricose humana passou a integrar a lista nacional de doenças de notificação compulsória — registro obrigatório no Sinan. Ou seja: cada caso humano vira número no sistema federal, e isso muda como o SUS responde.

E em dezembro de 2025, o CRMV-SP publicou a Nota Técnica 00001/2025/CTMV atualizando o protocolo veterinário — documento que serve de base para a clínica de gatos em todo o estado neste ano.

Por que isso importa pra você, tutor de gato

A esporotricose felina não escolhe gato vira-lata. Escolhe gato com acesso à rua, não castrado, macho — porque briga, arranha, abre ferida, contamina pela própria lesão, e leva pra casa. As três variáveis se somam: gato macho intacto com acesso à rua tem risco 6 a 9 vezes maior que gato fêmea castrada de apartamento, segundo a literatura compilada pela Revista MV&Z do CRMV-SP.

E a transmissão pra humano não é teórica. É arranhadura comum. É mordida em briga separando gato. É manipulação de lesão sem luva, achando que é “machucadinho que vai sarar”. A própria tutora do Mingau pegou pela arranhadura da semana anterior — quando o gato já tinha o nódulo de focinho, mas ela não tinha associado.

Quem está em riscoPor quê
Gato macho, intacto, com acesso à ruaBrigas, arranhaduras, contato com solo contaminado
Tutor que manipula lesão sem luvaInoculação direta do fungo na pele
Crianças e idosos da casaSistema imune relativamente menos competente
Médico veterinário e funcionário de abrigoExposição ocupacional repetida
Vizinho com quintal compartilhadoTrânsito do animal infectado entre os domicílios

Como suspeitar — sinais no gato

A lesão típica começa com um nódulo único, geralmente no focinho, orelha ou membros (pontos mais expostos em briga). Em dias a semanas, ulcera, vira ferida que não cicatriza, e pode aparecer nódulos em fila ao longo do trajeto linfático. Em casos avançados, surge espirro com secreção sanguinolenta (forma respiratória) e disseminação cutânea generalizada, com o gato emagrecido, apático, febril.

O diagnóstico no consultório é com citologia da lesão (impressão por aposição em lâmina) e cultura micológica — o protocolo está descrito tanto na Nota Técnica CRMV-SP quanto no Guia Prático CRMV-MG. O tratamento padrão de primeira linha é itraconazol oral por meses (ás vezes 6–12 meses), com iodeto de potássio como adjuvante em casos refratários — e adesão é o calcanhar de Aquiles: gato que para o remédio recai.

O que fazer com isso agora — protocolo doméstico

  1. Castre seu gato macho. Independentemente de raça ou idade. Castração reduz briga, reduz fuga, reduz arranhadura — reduz o risco de esporotricose em ordem de grandeza. É a intervenção mais custo-efetiva de todas.
  2. Restrinja acesso à rua. Gato de apartamento ou casa com janela telada tem risco residual. Quintal aberto em SP, Rio, Minas, ES — risco alto.
  3. Sempre manipule lesão de gato com luva descartável. Mesmo “machucadinho de briga” cicatrizando.
  4. Se aparecer nódulo que não cicatriza em 14 dias — não é “vai passar”. É consulta veterinária com citologia. O custo de uma consulta + citologia é uma fração do tratamento da forma disseminada.
  5. Tutor com lesão própria — procure dermatologista ou infectologista e mencione que tem gato com lesão. Não automedique.
  6. Nunca abandone gato doente. O abandono espalha o fungo no ambiente urbano e perpetua a cadeia. Tratamento existe e dá certo, embora exija paciência (meses).

O que ninguém comenta — a falha sistêmica do “sacrifício humanitário”

Por muitos anos, abrigo público e até clínica privada empurraram eutanásia como solução de primeira linha pra esporotricose felina avançada — argumento de “risco de transmissão pra humano e custo de tratamento alto demais”. O protocolo CRMV-SP de 2025 e a literatura recente desmontam essa lógica. Itraconazol genérico oral custa, em maio de 2026, entre R$ 35 e R$ 80 a caixa mensal (informação compilada de farmácias veterinárias e revistas técnicas). Em 8 a 12 meses de tratamento, o custo total fica entre R$ 400 e R$ 900 — menos que a consulta de emergência pra um cão atropelado. E a taxa de cura, com adesão correta, ultrapassa 70%.

A barreira é adesão: gato é difícil de medicar oral diariamente, fica estressado, vomita o comprimido, recusa pasta. A solução prática que a Revista Esporotricose Felina descreve é manipulação em fórmulas saborizadas (cápsula com sabor de fígado, suspensão oral em base oleosa) e treinamento do tutor pra técnica correta — virou hábito doméstico, perde o drama. Quem persiste, cura.

E há um efeito multiplicador. Cada gato curado é um foco de transmissão eliminado. Cada gato eutanasiado prematuramente é um diagnóstico que não se documenta no Sinan, uma cadeia que não se mapeia. O CVE-SP tem batido nessa tecla.

Quando a transmissão pra humano vira urgência

A maioria dos quadros humanos por Sporothrix brasiliensis responde a itraconazol oral também, com duração mais curta que no gato (3–6 meses tipicamente). Mas três grupos demandam avaliação imediata — não esperar “ver se passa”:

  • Crianças menores de 5 anos com lesão cutânea inoculada por arranhadura.
  • Idosos ou pacientes imunossuprimidos (HIV, quimioterapia, transplantados, corticoide crônico).
  • Qualquer pessoa com lesão facial, ocular ou que progride pra forma sistêmica (febre, perda de peso, tosse).

Procurar unidade básica de saúde com referência em dermatologia ou pronto-atendimento — esporotricose entrou no rol da notificação compulsória, e o sistema público está mais preparado em 2026 do que estava há dois anos. Tutor que esconde a história “porque é vergonha” atrasa o tratamento próprio. Não tem vergonha. Tem zoonose de cidade grande.

FAQ

Esporotricose mata o gato? Pode matar em casos disseminados não tratados, principalmente na forma respiratória. Com diagnóstico precoce e itraconazol bem administrado, a taxa de cura supera 70% — número compilado no Guia CRMV-MG.

Tem vacina pra esporotricose felina? Em 2026, ainda não. Há pesquisa promissora em desenvolvimento, mas nada comercializado no Brasil. Prevenção é castração + restrição de acesso à rua.

Se eu tiver outro gato em casa, ele também pega? Risco real. Isolar o gato infectado em ambiente exclusivo durante o tratamento é o protocolo recomendado pelo CVE-SP. Compartilhar caixa de areia e bebedouro entre gato doente e saudável aumenta o risco.

Fontes

D

Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

Continue lendo · Gatos

Ver tudo →