Barata Dubia como feeder: por que substituir o grilo e como montar uma colônia caseira
Blaberus dubia tem mais proteína, menos quitina, zero cheiro e não escapa do terrário. Guia completo sobre por que trocar o grilo pela Dubia e como manter uma colônia funcional com menos de R$ 150 de investimento.
Tem uma cena que se repete toda semana nos grupos de répteis: o tutor abre a caixa de grilos do pet shop, metade escapou pelo caminho, dois já morreram dentro do bag, e o resto está gritando às 2h da manhã enquanto ele tenta dormir. Depois de anos repetindo esse ciclo, uma grande parte dos criadores sérios chega à mesma conclusão silenciosa: o grilo é o feeder mais vendido, mas raramente é o melhor.
A Blaberus dubia — a barata Dubia — resolveu praticamente todo problema do grilo. Não faz barulho. Não tem cheiro forte. Não escapa de recipiente com tampa lisa. Tem perfil nutricional superior para a maioria dos répteis insetívoros. E pode ser criada em casa com investimento inicial menor do que um kit de lâmpada UVB.
A versão de 30 segundos
A Dubia é uma barata sul-americana de 4 a 5 cm, demorando cerca de 4 a 5 meses para atingir o estágio adulto. É inodora, não voa (machos têm asas vestigiais, fêmeas não têm) e não consegue escalar superfícies lisas de plástico ou vidro. Uma colônia de 100 fêmeas produz ninfas suficientes para alimentar um dragão barbudo adulto semanalmente. O custo de manutenção mensal de uma colônia doméstica bem estabelecida fica entre R$ 15 e R$ 30.
Conceito 1 — O perfil nutricional que o grilo não entrega
O argumento mais comum para defender o grilo é que “ele é natural” ou que “todo mundo usa”. Nenhum dos dois é razão nutricional.
Quando você compara Acheta domesticus (grilo doméstico) com Blaberus dubia usando os dados do banco Feedipedia da FAO e da análise publicada no Journal of Insects as Food and Feed (2014, van Huis et al.), a Dubia apresenta consistentemente:
- Proteína bruta: 23–28% na matéria seca vs. 18–21% do grilo doméstico
- Gordura bruta: 7–10% vs. 6–13% do grilo (a faixa de gordura do grilo sobe mais em grilos estressados e desidratados — exatamente o que chega no pet shop)
- Quitina: a Dubia tem casca mais mole em estágios de ninfa, o que reduz a carga de quitina indigerível na dieta — ponto crítico para espécies com trato digestório sensível, como o dragão barbudo filhote
- Relação cálcio/fósforo: 1:10 na Dubia sem gut-loading, similar ao grilo — os dois precisam de suplementação de cálcio antes do trato, não há atalho aqui
Na prática, o que muda para o réptil: uma Dubia bem gut-loaded entrega mais proteína aproveitável por grama do que um grilo do pet shop médio. Para um dragão barbudo em fase juvenil, que precisa de 70% de proteína animal na dieta até os 12 meses, isso não é detalhe — é a diferença entre crescimento ósseo saudável e déficit de proteína que aparece meses depois.
Eu mantenho colônia de Dubia há seis anos. Minha impressão subjetiva, comparando com o período em que usava grilo exclusivamente: o dragão barbudo que mantenho para criação — um adulto de 430 g — mostra resposta de alimentação mais consistente para Dubia do que para grilo. Ele recusa grilo em cerca de 30% dos tratos. Não recusa Dubia.
Conceito 2 — Como a colônia funciona (e por que é mais simples do que parece)
O ciclo de vida da Dubia tem três estágios: ninfa pequena (instar 1–3, 0,5 a 1,5 cm), ninfa média a grande (instar 4–7, 1,5 a 4 cm) e adulto (4–5 cm). A fêmea é ootovivípara — produz ooteca internamente e libera ninfas vivas, não ovos, a cada 60–70 dias, com média de 25 a 35 ninfas por parto. Isso significa que não há ovos soltos para acidentalmente vazar do recipiente.
O que você precisa para começar:
| Item | Especificação | Custo estimado (2026) |
|---|---|---|
| Caixa com tampa (40 L) | Polipropileno, sem orifícios nas laterais | R$ 25–40 |
| Tela de ventilação | Tela de nylon colada na tampa | R$ 5 |
| Placa aquecedora lateral | 20–30 W, com termostato (manter 30–35°C) | R$ 80–120 |
| Papelão corrugado | Esconderijo (egg cartons são ideais) | R$ 0–10 |
| Colônia inicial | 50 fêmeas + 20 machos adultos | R$ 80–150 |
Total inicial: R$ 190–325. A partir do segundo mês, a colônia começa a produzir ninfas em quantidade usável.
A temperatura é o fator mais crítico. Abaixo de 28°C a reprodução cai drasticamente. Entre 30°C e 35°C é a faixa ideal. Acima de 38°C começa estresse. Uma placa aquecedora lateral com termostato — o mesmo tipo usado em terráros, como descrevo no post sobre como escolher fonte de calor para terrário — resolve isso sem supervisão constante.
Alimentação da colônia: qualquer vegetal fresco (cenoura, abobrinha, folha de couve), ração de frango seca ou farelo de soja como proteína. A mesma lógica do gut-loading que se aplica aos grilos vale aqui — o que a barata come nas 24–48h antes de ser ofertada ao réptil vai diretamente para o animal. Detalhes sobre o princípio de gut-loading de insetos antes do trato estão no post específico sobre o tema.
Uma colônia de 50 fêmeas produz entre 1.000 e 1.500 ninfas por ciclo de 60–70 dias em condições ideais. Para um gecko leopardo adulto que come 5 a 7 insetos por trato e recebe 3 tratos semanais, isso é produção suficiente com sobra para repor machos e reforçar a colônia.
Conceito 3 — O que a Dubia não resolve (limitações reais)
Seria desonesto não listar onde a Dubia perde para outras opções.
Regulamentação estadual: em alguns estados americanos (Flórida, Havaí) a Blaberus dubia é proibida por risco de invasão biológica. No Brasil não há restrição federal — mas confira legislação municipal antes de importar ou comprar se você mora num estado com histórico de vigilância entomológica ativa.
Espécies com preferência por insetos menores: o gecko leopardo filhote nos primeiros dois meses de vida precisa de ninfas de instar 1–2 (0,5 a 1 cm). Produção nessa faixa de tamanho é irregular nas primeiras semanas da colônia. Para esse período específico, grilo de 1 semana ou mosca Musca domestica desasa podem ser mais práticos.
Custo de entrada vs. grilo de pet shop: se você tem um único gecko leopardo adulto e compra 30 grilos por mês a R$ 0,80 por grilo (R$ 24/mês), o break-even da colônia de Dubia fica em torno de 12 a 18 meses. A colônia compensa financeiramente para quem tem dois ou mais animais, ou um dragão barbudo adulto que come 15 a 20 insetos por trato.
Aceitação por serpentes: jiboias e cobras-de-milho têm dieta baseada em roedores, não em insetos. Dubia não é feeder relevante para serpentes — e essa confusão aparece com frequência entre iniciantes que leram sobre a Dubia para répteis sem contexto de qual réptil.
Para quem está avaliando qual réptil escolher e quer entender o custo real de alimentação de cada espécie, o comparativo entre as quatro espécies mais vendidas no Brasil tem os números de custo mensal por tipo de réptil iniciante.
Onde a Dubia falha no Brasil especificamente
Um dado que não encontrei documentado em nenhum guia nacional: o principal gargalo da Dubia no Brasil é o verão em regiões de clima tropical úmido.
Em cidades como Belém, Manaus e litoral nordestino, onde a temperatura ambiente do ambiente interno pode superar 35°C naturalmente, a colônia entra em estresse térmico sem refrigeração ativa. Nesses casos, o recipiente de criação precisa ficar em cômodo com ar condicionado ou ventilação forçada — e aí o custo de energia passa a contar. Para quem mora nessas regiões, vale avaliar a Blatta lateralis (barata turkestani), que tolera faixa térmica mais ampla, embora tenha perfil nutricional ligeiramente inferior à Dubia.
No Sudeste e Sul, onde a temperatura interna do apartamento fica entre 18°C e 30°C na maior parte do ano, a placa aquecedora lateral resolve sem custo de refrigeração.
Checklist antes de começar sua colônia
- Recipiente com tampa lisa (sem bordas rugosas nas laterais — Dubia não escala plástico liso, mas sobe bordas texturizadas)
- Ventilação por tela de nylon na tampa (não nas laterais — evita fuga por pressão negativa)
- Temperatura da colônia entre 30°C e 35°C monitorada por termômetro de sonda
- Papelão corrugado ou egg cartons verticais como esconderijo (aumenta superfície, reduz canibalismo de muda)
- Alimento fresco diário ou em dias alternados (vegetal + fonte de proteína seca)
- Remoção de fezes a cada 7–10 dias (frass acumulado é vetor de bactéria e amônia)
- Proporção mínima: 2 fêmeas para cada macho (proporção 3:1 a 5:1 maximiza reprodução)
- Isolamento de ninfas pequenas se necessário (canibalismo de adultos sobre ninfas de instar 1 acontece quando colônia está superlotada)
- Registro semanal de tamanho estimado da colônia nos primeiros 3 meses (confirma que reprodução está ocorrendo antes de depender da colônia como fonte principal)
Fontes
- van Huis, A. et al. (2013) — Edible Insects: Future Prospects for Food and Feed Security, FAO
- Feedipedia — Blaberus dubia, nutrient profile
- MSD Veterinary Manual — Nutritional Diseases of Reptiles
- [Reptile Medicine and Surgery, Mader D.R. (2006) — capítulo sobre nutrição de insetívoros]
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Escrito por
Felipe Camargo
Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.


