segunda-feira, 6 de julho de 2026
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Cachorro coçando a orelha: otite, alergia ou ácaro — como diferenciar e quando ir ao vet

Cachorro que coça a orelha sem parar pode ter otite bacteriana, alergia alimentar ou sarna otodécica. Dra. Mariana explica os sinais que diferenciam cada causa e quando a espera vira risco.

Dra. Mariana Tessari 7 min de leitura
Cachorro de porte médio coçando a orelha com a pata traseira, focado em veterinário examinando
Cachorro de porte médio coçando a orelha com a pata traseira, focado em veterinário examinando

Todo tutor já viu aquela cena: o cão para no meio da sala, levanta a pata traseira e começa a coçar a orelha com aquela intensidade que parece querer arrancar algo de dentro. Uma vez, dá pra ignorar. Três vezes no mesmo dia, você começa a ficar inquieto. Aí chega a semana seguinte e a orelha começa a cheirar diferente. Nesse ponto, a dúvida real não é “o que causou isso” — é “quanto tempo eu ainda tenho antes de isso virar um problema sério”.

A tese

Cachorro que coça a orelha não tem “uma” causa — tem três padrões clínicos completamente distintos, cada um com abordagem diferente. Confundir os três é o erro número um que vejo nos tutores que chegam ao consultório depois de duas semanas usando “remédio da pet shop” sem melhora. A diferença entre resolver em 7 dias e arrastar por 3 meses está em identificar o padrão certo desde o início.


Evidência 1 — Otite infecciosa: o cheiro conta mais do que a coceira

A otite bacteriana ou fúngica (por Malassezia pachydermatis, o fungo mais frequente no canal auricular canino) tem uma característica que nenhuma outra causa reproduz: o odor intenso e fermentado, às vezes descrito pelos tutores como “queijo velho” ou “suor azedo”. Junto com esse cheiro vem secreção escura ou amarelada dentro do canal, e o cão frequentemente sacode a cabeça além de coçar.

O ponto que a internet raramente deixa claro: a infecção quase nunca é causa primária — ela é consequência. Alguma coisa criou o ambiente úmido e quente que permitiu a proliferação bacteriana ou fúngica. Pode ser banho com água acumulada no canal (raças com orelha em “L” como Cocker, Basset e Golden são campeãs), excesso de pelos dentro da orelha, ou — e aqui está o nó que complica tudo — alergia alimentar ou ambiental. Sem tratar a causa raiz, a otite volta. Sempre.

No consultório, o diagnóstico passa pela citologia do exsudato: lâmina com material do canal, coloração rápida e microscópio. Em 20 minutos sabe-se se há cocos (bactéria), leveduras (Malassezia) ou bastonetes (Pseudomonas — a mais difícil de tratar). Sem citologia, qualquer medicação é chute. Eu não receito sem esse resultado — e desconfio de qualquer protocolo que trate orelha sem ele.


Evidência 2 — Sarna otodécica: o ácaro que vive da cerumina

Otodectes cynotis é o ácaro de orelha. Ele vive exclusivamente no canal auricular e se alimenta de cerumina (o “ceroume”). A infestação é muito mais comum em filhotes e em animais que convivem com gatos — gatos são reservatório natural e transmitem facilmente para cães no contato direto.

O sinal característico é a secreção escura e granulosa, com textura que lembra borra de café. A coceira costuma ser bilateral (as duas orelhas ao mesmo tempo) e intensa — o filhote coça até se machucar. Outro detalhe que eu uso para suspeitar de ácaro antes mesmo do otoscópio: o animal tende a coçar o pescoço e a base da orelha externamente, não só dentro do canal, porque o ácaro pode migrar para a pele ao redor.

O diagnóstico é simples: otoscópio ou swab e microscópio. Os ácaros adultos são visíveis, brancos e se movem. O tratamento com produtos antiparasitários (isoxazolinas sistêmicas ou pipetas específicas para ácaro auricular) elimina o problema em uma a duas aplicações — mas todos os animais da casa precisam ser tratados simultaneamente, mesmo os que não coçam. Gato incluído.

Algo que aprendi na prática: tutores que tratam só o cão e esquecem o gato voltam em 30 dias com a mesma infestação. A reinfestação não é falha do remédio — é falha de protocolo.


Evidência 3 — Alergia como gatilho crônico: a causa que esconde atrás de tudo

Este é o padrão que mais demora para ser identificado — e o mais frustrante. O cão tem otites de repetição: resolve com medicação, volta em 3 a 6 semanas. O tutor troca o medicamento, melhora de novo, e o ciclo se repete. O canal começa a espessar. Em casos avançados, o conduto auditivo fica tão inflamado e fibrosado que a medicação tópica não penetra mais — e aí o único caminho é cirurgia (TECA: ablação total do conduto auricular), que é cara, irreversível e evitável se a alergia for diagnosticada antes.

A alergia mais comum que dispara otite é a dermatite atópica — reação a proteínas do ambiente (ácaro doméstico, pólen, fungo) ou, em segundo lugar, hipersensibilidade alimentar (proteínas de frango, boi ou trigo são as mais frequentes no Brasil). O cão atópico não coça só a orelha: coça patas, virilha, axilas. A orelha é o sinal sentinela porque é a área mais úmida e quente do corpo.

O diagnóstico de alergia alimentar exige dieta de eliminação rigorosa por 8 a 12 semanas com proteína hidrolisada ou proteína nova (peixe, cordeiro, pato — desde que o animal nunca tenha comido antes). Nenhum petisco, nenhuma “mordidinha” do que o dono come. Qualquer deslize reinicia a contagem. É a parte mais difícil para o tutor cumprir — e é exatamente o que diferencia quem resolve o problema de quem fica na roda de otite crônica.

Para quem quer entender melhor como a alimentação influencia a saúde auricular, o post sobre como escolher ração para filhote com base em proteína e cálcio ajuda a entender o impacto dos ingredientes desde o início da vida do cão.


O contra-argumento honesto

Existe um cenário em que minha tese falha: o cão com corpo estranho no canal auricular. Espiga de capim (aquelas com “farpas” que entram mas não saem) causa coceira súbita e intensa, muitas vezes unilateral, sem cheiro nem secreção, e não responde a nenhum medicamento — porque o problema não é infeccioso. Otoscópio resolve na hora. Mas corpo estranho é exceção na casuística geral — a maioria dos casos se encaixa em um dos três padrões acima.


Onde isso te leva — e o que fazer agora

O caminho é simples na teoria, trabalhoso na prática:

  1. Observe o padrão: cheiro forte + secreção = suspeita de infecção. Secreção escura granulosa + filhote/contato com gato = suspeita de ácaro. Otites de repetição + coceira em outras regiões = suspeita de alergia.
  2. Não use medicação sem diagnóstico. Produto de prateleira com corticoide e antibiótico misturado mascara o problema sem resolver — e pode causar resistência bacteriana que complica tudo.
  3. Vá ao vet com urgência se: o cão inclinar a cabeça de forma persistente, andar em círculos, ou perder equilíbrio (sinais de otite média/interna); se houver sangramento ou dor intensa ao toque; se a orelha estiver muito quente e inchada externamente (pode ser hematoma auricular — o sangue que acumula entre as camadas da cartilagem por coçar intenso, que precisa de drenagem).

O hematoma auricular merece atenção especial: é uma complicação direta do coçar excessivo. Se você notar a orelha do cão “estufada” e mole como uma bolsa d”água, isso não melhora sozinho — precisa de intervenção veterinária.

Entender os sinais de dor no cachorro ajuda a calibrar a urgência: cão que esconde o rosto, resiste ao toque na cabeça ou para de comer junto com a coceira de orelha está sinalizando um grau de desconforto que não espera consulta de rotina.


Checklist — o que observar antes de ligar pro vet

  • A coceira é unilateral (só uma orelha) ou bilateral (as duas)?
  • Existe secreção? Qual a cor e textura (escura/granulosa, amarelada/cremosa, sangue)?
  • Tem cheiro? Descreva o odor se conseguir — ajuda muito na triagem remota.
  • O cão sacode a cabeça além de coçar?
  • Há outras áreas com coceira (patas, virilha, axilas)?
  • O animal teve contato recente com gatos ou outros cães?
  • Houve banho recente com água que pode ter entrado no canal?
  • É a primeira vez ou aconteceu antes? Com que frequência?

Levar essas respostas para a consulta reduz pela metade o tempo de diagnóstico — e em consultas de 20 minutos, isso importa muito.

Para quem também está monitorando o peso e a condição geral do cão enquanto investiga a causa da otite crônica, o post sobre quanto exercício o cachorro precisa por dia tem contexto útil sobre como raça e porte influenciam a resposta inflamatória sistêmica.


Fontes

  1. Gotthelf, L.N. Small Animal Ear Diseases: An Illustrated Guide. 2ª ed. Elsevier Saunders, 2005. Referência clínica padrão em otologia veterinária.
  2. MSD Veterinary Manual — Otitis Externa in Dogs and Cats: https://www.msdvetmanual.com/ear-disorders/otitis-externa/otitis-externa-in-dogs-and-cats
  3. Müller, G.H.; Kirk, R.W.; Scott, D.W. Small Animal Dermatology. 6ª ed. W.B. Saunders, 2001. Capítulo sobre hipersensibilidade e dermatite atópica canina.
  4. Rosser, E.J. Jr. “Diagnosis of food allergy in dogs.” Journal of the American Veterinary Medical Association, 203(2): 259-262, 1993. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8376489/
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Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

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