Pressão alta em cachorro: a doença silenciosa que chega sem avisar (e como detectar cedo)
Hipertensão canina raramente mostra sintoma até danificar rins, olhos ou coração. Dra. Mariana Tessari explica os fatores de risco, os exames que detectam cedo e por que a aferição de pressão virou rotina em cães acima de 7 anos.
O Bartô chegou ao consultório pra uma consulta de rotina. Labrador, 9 anos, gordinho, sonolento — o tutor dizia que era “coisa de idade”. Quando aferimos a pressão, o número foi 195 mmHg sistólica. Normal em cão é abaixo de 140. Bartô estava sofrendo de hipertensão arterial severa há provavelmente meses sem nenhum sinal externo que o tutor pudesse ter percebido. Exames mostraram proteinúria acentuada e creatinina já no limite superior da normalidade — os rins estavam sendo danificados em silêncio.
Hipertensão em cão é assim. Não grita. Não manca. Não tosse. O animal vive normalmente até o dia em que a pressão alta já causou dano suficiente pra aparecer como sintoma — e nesse ponto, o dano é frequentemente irreversível.
O que aconteceu antes do Bartô
Antes de explicar a fisiologia, preciso contar o que virei para trás nessa consulta.
O Bartô estava com o tutor há sete anos. Consultas anuais, vacinas em dia, hemograma e bioquímica a cada 18 meses. Em nenhuma das consultas anteriores a pressão havia sido aferida. Isso não é negligência do tutor — é que a maioria dos protocolos de rotina clínica para cães adultos ainda não inclui aferição de pressão como item padrão abaixo dos 7 anos. E o Bartô fez 7 anos, depois 8, e as consultas continuaram sem esse dado.
Quando introduzi a aferição de pressão no meu protocolo de consulta geriátrica (cães acima de 7 anos), a taxa de detecção de hipertensão foi maior do que eu esperava. De cada 10 cães idosos que atendo, 2 ou 3 têm pressão acima do normal na primeira aferição — e a maioria dos tutores não suspeitava de nada.
Por que a pressão sobe em cão?
Em medicina veterinária, hipertensão canina é classificada em duas categorias:
Hipertensão secundária (mais comum): é consequência de outra doença. As três causas mais frequentes são:
- Doença renal crônica (DRC): os rins danificados retêm sódio e água, aumentando o volume sanguíneo e a pressão. É o caminho mais comum — DRC causa hipertensão, e hipertensão acelera a DRC. Um ciclo que se autoalimenta.
- Hiperadrenocorticismo (Doença de Cushing): excesso de cortisol aumenta a retenção de sódio e eleva a pressão. Raças predispostas ao Cushing (Poodle, Dachshund, Boxer, Yorkshire) têm risco maior.
- Hipotireoidismo avançado: menos frequente, mas altera a regulação vascular de forma secundária.
Hipertensão idiopática ou primária (menos comum em cães, mais em humanos): sem causa identificável. Rara em cães, responde por menos de 20% dos casos (Brown S.A. et al., Journal of Veterinary Internal Medicine, 2007).
Quais raças e faixas etárias têm mais risco?
A resposta curta: cão acima de 7 anos com qualquer doença sistêmica crônica.
A resposta mais detalhada:
- Raças com predisposição a DRC: Cocker Spaniel, Shar-Pei, Bull Terrier, Cairn Terrier, Samoyeda.
- Raças com predisposição a Cushing: Poodle, Dachshund, Yorkshire, Boxer, Boston Terrier.
- Qualquer cão obeso (sobrepeso é fator de risco independente para hipertensão em estudo da Universidade de Georgia, 2019).
- Cão sedentário de meia-idade (7–10 anos) sem exames anuais de bioquímica.
Mas — e isso é importante — vi hipertensão em cão de 4 anos com DRC congênita. Idade acima de 7 anos aumenta o risco, mas não é o único critério.
Como é feita a aferição de pressão em cão?
O método padrão em cão é Doppler ou oscilometria com manguito adaptado ao tamanho do animal. Não é o estetoscópio de humano — o coração do cão bate numa frequência que não é detectada com equipamento humano convencional.
O protocolo correto (baseado nas diretrizes do ACVIM — Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária, 2019):
- Animal em repouso por 5–10 minutos antes da aferição.
- Manguito posicionado no membro torácico ou coccígeo, dependendo do equipamento.
- Mínimo de 3 aferições consecutivas — a média das últimas duas é o valor considerado.
- O ambiente precisa ser calmo. “Hipertensão de jaleco branco” existe em cão também.
Pressão sistólica acima de 160 mmHg confirmada em múltiplas aferições classifica hipertensão. Acima de 180 mmHg é emergência (risco de sangramento retinal, convulsão hipertensiva, acidente vascular encefálico).
Sinais que podem aparecer (quando já é tarde)
Insisto: hipertensão grave pode se apresentar sem sintoma nenhum. Mas quando sinais aparecem, eles costumam ser:
- Alteração ocular: sangramento na retina, dilatação pupilar, cegueira súbita parcial ou total. É o sinal mais dramático e pode surgir sem aviso em crises hipertensivas.
- Alteração neurológica: desorientação, andar em círculos, convulsão — indica comprometimento vascular cerebral.
- Intolerância ao exercício crescente: o cão cansa mais rápido, para de querer passear. Fácil de confundir com “preguiça” ou “coisa de idade”.
- Proteinúria visível: urina com espuma no cão não é normal. Pode indicar dano glomerular secundário à hipertensão.
Bartô tinha intolerância ao exercício. O tutor achava que era artrose leve — plausível pra um Labrador de 9 anos. Era hipertensão deteriorando os rins.
O que acontece depois do diagnóstico
Tratamento depende da causa subjacente. Se há DRC, o controle da DRC é parte do tratamento da hipertensão. Se há Cushing, tratar o Cushing reduz a pressão.
O anti-hipertensivo mais usado em cão é amlodipina (bloqueador de canal de cálcio), com dosagem e monitoramento exclusivamente veterinários. Em alguns casos, combinação com inibidor de ECA (enalapril, benazepril) é indicada.
Bartô estabilizou com amlodipina 0,1mg/kg/dia e dieta renal. A pressão baixou para 145 mmHg em 30 dias. A creatinina parou de subir. Não voltou ao normal — o dano renal já estava feito — mas o progresso foi freado.
O que fazer agora
Se o seu cão tem 7 anos ou mais, peça ao veterinário para incluir aferição de pressão na próxima consulta. Se houver diagnóstico de DRC, Cushing ou obesidade em qualquer idade, a aferição deve acontecer imediatamente e ser repetida a cada 3–6 meses.
Exames de rotina para cão acima de 7 anos que detectam hipertensão secundária antes que ela cause dano: hemograma completo, bioquímica (ureia, creatinina, ALT, FA), urinálise com UPC (relação proteína:creatinina urinária), e ultrassom abdominal anual. Para entender melhor o que muda na rotina do cão a partir dos 7 anos, veja o guia sobre sinais de dor em cachorro: como identificar quando o animal está sofrendo — muitos sinais de hipertensão avançada se confundem com dor crônica.
Cão geriátrico tem exame diferente de cão jovem. Isso não é gastos extras — é prevenção do que custa muito mais pra tratar quando chega tarde.
Fontes
- Brown, S. A. et al. “Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats”. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2007. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1939-1676.2007.tb01964.x
- Acierno, M. J. et al. “ACVIM consensus statement: Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats”. Journal of Veterinary Internal Medicine, 2018. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/jvim.15331
- Pelosi, A. et al. “Obesity and the cardiovascular system”. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 2018.
Escrito por
Dra. Mariana Tessari
Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.


