segunda-feira, 6 de julho de 2026
Pets Saudáveis PETS SAUDÁVEIS
Cachorros

Febre em cachorro: como medir a temperatura e saber quando é emergência

Cachorro quente, sem apetite ou prostrado pode ter febre. Dra. Mariana ensina a medir a temperatura corretamente, o que os números significam e quais sinais pedem clínica urgente.

Dra. Mariana Tessari 7 min de leitura
Veterinária medindo a temperatura de um cachorro com termômetro digital durante consulta clínica
Veterinária medindo a temperatura de um cachorro com termômetro digital durante consulta clínica

O WhatsApp da clínica acendeu numa sexta à noite: “Doutora, meu cão está quente e não quer comer desde o almoço. Tem febre?” A pergunta chegou acompanhada de um áudio descrevendo o nariz do animal — “seco e quente”. Respondi com outra pergunta: “Você mediu a temperatura dele?”

Silêncio de três minutos. Depois: “Dá pra fazer isso em casa?”

Dá. E é exatamente o que qualquer tutor precisa saber — porque nariz quente não é termômetro, e “parece que tem febre” é uma informação que não ajuda ninguém a tomar decisão.

A versão de 30 segundos

Temperatura normal de cão adulto: 38,0 °C a 39,2 °C. Filhotes saudáveis ficam na faixa de 38,2 °C a 39,5 °C. Acima de 39,3 °C em adulto já começa a zona de atenção. Acima de 40 °C é febre real e pede avaliação no mesmo dia. Acima de 41 °C é emergência — dano celular começa nessa faixa.

Nariz frio ou quente, orelha aquecida, “parece que está com febre”: nenhum desses sinais substitui o termômetro. A faixa normal de temperatura varia ao longo do dia, depois de exercício e em ambientes quentes — e o olho humano não consegue diferenciar 38,8 °C de 40,1 °C.


Conceito 1 — O termômetro certo e a técnica correta

O termômetro de mercúrio virou peça de museu — além do risco de intoxicação se quebrar, o vidro assusta o animal. O que funciona na prática é o termômetro digital retal de ponta flexível: barato (R$ 20–35 em qualquer farmácia), rápido (10–30 segundos para leitura) e confiável.

Termômetros auriculares para humanos não foram calibrados para a anatomia do canal auditivo canino e geram leituras inconsistentes. Já os modelos veterinários auriculares específicos funcionam, mas custam mais e são menos acessíveis para uso doméstico. Para quem vai aferir raramente, o retal digital basta.

Como medir:

  1. Deite o cão de lado ou posicione-o em pé com um assistente segurando gentilmente o tronco.
  2. Aplique uma fina camada de vaselina ou gel lubrificante na ponta do termômetro.
  3. Levante a cauda e insira o termômetro no reto com movimento suave — profundidade de 2 cm é suficiente.
  4. Aguarde o bipe. Retire, leia, registre o valor e o horário.
  5. Higienize o termômetro com álcool 70% antes de guardar.

Na primeira vez, o cão vai estranhar. Dois ou três segundos de estranhamento são normais. Se ele reage com dor intensa ou resistência extrema, pare — pode haver algo que impeça a inserção (hérnia, massa retal). Nesses casos, a medição espera o veterinário.

Minha recomendação: faça isso uma vez quando o cão estiver saudável, só para acostumar ele e você. Quando vier a dúvida real, o gesto já será automático.


Conceito 2 — O que os números significam (e o que não significam)

Temperatura não é diagnóstico. É um dado. O que você faz com esse dado depende de quanto mais ele revela quando combinado com outros sinais.

Faixa (adulto)InterpretaçãoO que fazer
37,5 °C a 38,0 °CHipotermia leve — pode ser pós-banho ou estresseAquecer, remonitorar em 1h
38,0 °C a 39,2 °CNormalNada, se outros sinais também forem normais
39,3 °C a 39,9 °CZona de atenção — pode ser estresse, calor ou início de processo infecciosoRemonitorar em 2h; observar apetite, postura, mucosas
40,0 °C a 40,9 °CFebre — processo ativo em cursoConsultar vet no mesmo dia
41,0 °C ou maisEmergência — hiperpirexia com risco de dano neurológico e coagulaçãoClínica 24h imediatamente

Temperatura elevada sozinha, sem outros sinais, em um cão que acabou de brincar ou ficou no sol por 20 minutos pode ser sobrecarga de calor transitória — não necessariamente doença. Medir de novo após 30 minutos de descanso em ambiente fresco costuma normalizar nesses casos.

A febre real — causada por pirógenos endógenos liberados em resposta a infecção, inflamação ou imunomediação — tem uma assinatura diferente: o cão está prostrado mesmo depois de descansar, não quer comer, pode ter tremor ou procura um canto para se esconder. Essa combinação, na minha experiência clínica, raramente normaliza sem intervenção.


Conceito 3 — As causas mais comuns (e as que não dá pra ignorar)

Febre em cão pode ter origem infecciosa, inflamatória, imunomediada ou neoplásica. As causas mais frequentes que vejo no consultório:

Infecciosas (as mais comuns em cães jovens e adultos sem histórico crônico):

  • Infecções bacterianas — pele, vias urinárias, trato respiratório
  • Erliquiose e outras doenças transmitidas por carrapatos (Ehrlichia canis é endêmica no Brasil e cursa com febre persistente, palidez de mucosas e apatia profunda)
  • Leptospirose — emergência real, cursando com febre + vômito + icterícia
  • Cinomose em cães não vacinados ou com imunidade comprometida

Inflamatórias / imunomediadas (mais comuns em adultos com histórico):

  • Poliartrite imunomediada — febre que vai e vem, cão reluta em se mover, sem causa infecciosa identificada
  • Doença inflamatória intestinal — febre baixa recorrente com perda de peso
  • Piómetra em cadelas não castradas — emergência cirúrgica que cursa com febre, polidipsia e corrimento vaginal

O que não provoca febre (mas parece):

  • Nariz seco por desidratação ou sono — sem relação com temperatura central
  • Orelha quente isolada — pode ser só inflamação local de otite, sem febre sistêmica
  • “Olho vermelho” — irritação ocular não sobe a temperatura do cão

Essa distinção importa porque tutores frequentemente chegam à clínica com cão cuja temperatura está normal, mas com um sinal isolado que os preocupou. O contrário também acontece: cão com febre de 40,2 °C cujo único sinal externo era “parece cansado”. Por isso o termômetro é insubstituível.


Onde isso falha — limitações reais da medição em casa

Temperatura retal em casa tem valor clínico real, mas tem limites:

  • Não revela a causa. Você sabe que há febre. Ainda não sabe se é erliquiose, piómetra ou poliartrite. Isso precisa de exame físico, hemograma e sorologias.
  • Um valor isolado não é tendência. Febre que baixou com repouso e voltou 4 horas depois é diferente de febre que nunca cedeu. Anotar hora e valor em cada medição ajuda o veterinário a entender o padrão.
  • Antitérmico humano é proibido. Paracetamol, dipirona e ibuprofeno têm toxicidade séria em cães — a dipirona em doses erradas já causou supressão de medula em cães menores. Nunca medique sem prescrição veterinária.
  • Temperatura pode mascarar a gravidade. Sepse grave, em certos estágios, cursa com hipotermia em vez de hipertermia. Cão que esfria de repente e está prostrado pode estar em estado crítico — não em recuperação.

Para quem tem sinais de dor no cachorro associados à febre — gemido, postura encurvada, relutância em se mover —, a urgência aumenta e a ida à clínica não deve esperar.

Da mesma forma, se você observou que o cão está dormindo demais ou com letargia além do comum, isso combinado com temperatura elevada é a combinação que mais me preocupa: é o perfil do animal que está mal há mais horas do que o tutor percebeu.


O que fazer enquanto não chega na clínica

Se a temperatura está entre 39,3 °C e 40,0 °C e você está aguardando horário de atendimento:

  1. Ambiente fresco — retire o cão do sol, coloque em local ventilado, mas sem ar-condicionado direto.
  2. Água fresca disponível — não force a ingestão, mas ofereça.
  3. Sem compressa de gelo — compressa fria na região do pescoço ou virilha pode causar vasoconstrição periférica e dificultar a dissipação de calor. Compressa levemente úmida em temperatura ambiente é mais seguro se quiser fazer algo.
  4. Sem medicação — sério. Nenhuma.
  5. Monitore de 1 em 1 hora — se passar de 40 °C, vá imediatamente, sem esperar o horário marcado.

Se o cão tem histórico de tremores ou convulsões e a febre subir rapidamente, não espere: sistema nervoso aquecido é um gatilho conhecido para crises em animais com limiar convulsivo baixo.

E se, além da febre, o cão estiver com diarreia intensa ou vômito repetido, a perda de líquidos combinada com temperatura elevada acelera a desidratação — o que transforma uma situação de urgência em emergência.


Fontes

  • Ettinger, S.J.; Feldman, E.C. Textbook of Veterinary Internal Medicine, 8ª ed. Elsevier, 2017. Capítulo “Fever and Hyperthermia”, p. 207–214.
  • MSD Veterinary Manual. “Fever of Unknown Origin in Dogs”. Merck & Co., 2024. Disponível em: https://www.msdvetmanual.com/dog-owners/routine-care-and-breeding/fever
  • Dunn, K.J. “Body temperature measurement in dogs”. Veterinary Record, v.141, 1997. DOI: 10.1136/vr.141.17.435
  • Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). Resolução nº 1.236/2018 — Boas práticas em clínica veterinária. https://www.cfmv.gov.br
D

Escrito por

Dra. Mariana Tessari

Cuidado, saúde e comportamento animal com base em evidência veterinária.

Continue lendo · Cachorros

Ver tudo →